Cifra da Esperança

“É bem difícil essa questão de droga, de violência. Adolescentes e jovens que a gente vê que precisam de um trabalho nessa área.” Regina Resende, coordenadora do Projeto.

Fotografias penduradas ao teto balan- çavam junto com o barbante que as amarrava acompanhando o vento que entrava pelo corredor. Embalado pela melodia que ressoava do coro das crianças, que insistiam em entrar no contratempo ou cantar fora do tom e logo eram remendadas por uma voz adulta. Caso o ouvido estivesse atento, o grave abafado dos violoncelos trazia o ninar de “Frère Jacques” interrompido por uma solene ordem, “Essa é muito fácil, se posicionem e vamos começar ‘Marcha Soldado’”. Sobre o mural de tapume, que encerrava o corredor, algumas fotos também estavam coladas. Imagens que trazem memórias de pelo menos mil pessoas que passaram por lá, desde 2002, ainda com 25 alunos matriculados, até ás mais recentes..

Este é o container azul, local no qual são realizadas aulas de canto, violão, violoncelo, violino, teclado e inglês para crianças e adolescentes que moram no bairro do Uberaba, em Curitiba, e seu entorno, Jardim Caraí e Aurora. Atualmente, são cem alunos que ocupam estas vagas. Além dele, descendo um por uma passagem de pedras em meio ao gramado, a casa de artesanato, corte e costura para as mulheres, onde também funciona a cozinha e o refeitório. Diferentemente do bloco azul, o ambiente sonoro da casa amarela é composto por um não cessar de conversas disparadas por todos os lados. São as alunas da oficina, que se reúnem para discutir qual a melhor maneira de se lidar com um tecido até problemas pessoais.

O Projeto Esperança, que faz parte da ONG internacional Jovens com uma Missão, JOCUM, cuida da área social, responsável por pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica da região. Já que o bairro, de acordo com os dados da Coordenadoria de Análise e Planejamento Estratégico (Cape), faz parte das estatísticas dos 35% de homicídios dolosos que aconteceram na capital em 2015. Sendo considerado o quinto mais violento, com 17 mortes naquele ano. Extraídos do Boletim de Ocorrência Unificado (BOU), foram 220 furtos e roubos decorridos no primeiro trimestre deste ano, 2016.

Perspectiva

Regina Resende, coordenadora do Projeto Esperança, exemplifica esses dados: “Trabalhando aqui há mais de dez anos eu via que no início não tinha rua asfaltada. Hoje já vemos a mudança das ruas asfaltadas, escolas, transportes. Existem centro esportivo e outros projetos na comunidade. Mas ainda é bem difícil essa questão de droga, de violência. Adolescentes e jovens, que a gente vê que precisam de um trabalho nessa área”.

De acordo com a coordenadora, outro problema agravante à situação é o da desestrutura familiar. Fazendo com que os voluntários saiam das salas e façam visitas a cada quinzena na casa dos matriculados para verificar como está a situação das crianças. Apesar de não possuir mensuração dos dados concretos referentes aos casos, ela afirma: “Nós encontramos muitos pais alcoólatras, recebemos meninos que falam que os pais estão envolvidos com o tráfico de drogas, isto é comum. Tinha uma família que nós acompanhamos há uns quatro anos. O pai abandou por causa da bebida. O menino de 14 anos já está envolvido com drogas. Nós levamos a família para a casa da Cohab. A filha está no curso de música, a mãe às vezes vem para cá. Nós conversamos bastante com as crianças”. A coordenadora afirma que a situação do bairro melhorou devido às múltiplas ações da prefeitura e de outras ONGs, mas ainda falta um longo processo a ser trilhado para que as coisas fiquem melhores.

Parcerias

A organização funciona a partir de parcerias com outras instituições, como o Colégio Bom Jesus; a Primeira Igreja Batista (PIB); a norteamericana Sheltering Wings, uma fundação cristã que tem como objetivo fazer com que seus missionários façam trabalhos sociais pelo mundo; a igreja holandesa protestante Kerk; a Help Poor People, projeto de costura para pessoas consideradas em situação financeira baixa. Além do desconto nas contas de água e energia elétrica, pelo governo estadual.

Cada uma das instituições parceiras fornece ajuda por meio de materiais: as máquinas de costura usadas nas aulas são enviadas da Holanda pela Kerk. A Primeira Igreja Batista fornece ajuda pelos voluntários do projeto Espaço Música e Vida, que foram convidados para ensinar teoria musical, canto, coral, e orquestra de cordas.

Na casa de artesanato, corte e costura, a voluntária Clara de Oliveira, que trabalha há 13 anos na organização e agora atua há dois anos como coordenadora na área de costura, diz que anteriormente este espaço era utilizado para a alfabetização de crianças que não estavam matriculadas em instituições formais de ensino, mas com a mudança social a sala foi remodelada para receber mulheres aposentadas que se dedicam a trabalhos manuais. Para Clara, o ambiente é terapêutico, “aqui a gente conversa, ri, interrompe para conversar. Não é só costura, é um todo. Muitas mulheres chegam aqui com depressão e melhoram devido ao relacionamento”. A aluna Iracema Araújo confirma – “Clima de família e amigos. Para mim isso aqui é uma terapia, além de ajudar outras pessoas gera uma satisfação muito gratificante”.

Além de receber ajuda o projeto também visa prestar auxílios a outros missionários do JOCUM. Como é o caso de Camilo Henriquez, 24 anos, missionário chileno, que trabalhava no Chile em uma escola de aconselhamento, que tem como objetivo amparar psicologicamente pessoas que sofrem qualquer tipo de abuso, muitos deles a violência contra a mulher e abusos sexuais. Está no Brasil para prender as ferramentas necessárias para a abordagem de levar este tipo de escola para as crianças que são vítimas de abuso. De acordo com ele, no Chile estes casos não são trabalhados pela igreja. “Aqui no Brasil, está um pouco mais elaborado. Porque lá até agora não se fala quase nada sobre prevenção a abusos e outras distintas circunstâncias”, afirma.

Multiplicar

Para a psicopedagoga Evelise Portilho, o ensino de diversos conhecimentos, da música à língua estrangeira, está relacionado ao conceito de Inteligências Múltiplas, desenvolvido na década de 1980 pelo psicólogo Howard Gardner, no qual o ser humano deve ser considerado como um todo cognitivo e que cada indivíduo pode desenvolver uma mesma função a partir de outros mecanismos mentais e sensoriais. Sendo avaliada a sua habilidade múltipla de apreender elementos que estão dispostos à sua volta. Evelise afirma que, “nesta possibilidade múltipla que todos nós somos, a música, uma língua estrangeira, atividades físicas, são todas novas linguagens que vem a agregar no desenvolvimento cognitivo de uma pessoa”. A psicopedagoga diz que cada um pode utilizar uma estratégia própria de estudo aliada a essas novas linguagens. Aplicando esta educação à pedagogia de Paulo Freire, de levar em consideração o conhecimento e o repertório que os alunos já possuem além de seu relacionamento com o ambiente no qual estão inseridos, explica que “pela educação a gente aprende a se colocar no mundo. Levar o sujeito a uma condição mais pertencente à sociedade em que ele vive. A educação pode fazer diferença quando consigo problematizar, encontrar respostas para estes problemas, e viver a realidade em que estou inserido. A educação é libertadora”.

Entre violência, violas e violeiros faltaram os violoncelos e violinos. Julia e Suelen, de dez anos, estão lá desde 2015 e contam que foram amigas que indicaram o local. Elas têm aula pela manhã e, à tarde, frequentam as sessões de violoncelo com a professora Paula Cristina Pimentel de Carvalho, passam no projeto por volta de duas horas por dia. Após a timidez inicial esboçaram um sorriso quando perguntadas se preferiam a escola ou o projeto. “É bem melhor que a escola, aqui a gente se diverte e não precisa escrever”, confessa Julia. Taís Almeida, 17 anos, estuda violino desde 2012, relata a importância da instituição para ela e para a comunidade, “é sempre no centro e tem que pagar. Achar um curso de graça e perto de casa é muito bom. Eu gosto do companheirismo e gosto da orquestra. Tocando em conjunto a gente aprende mais”, conclui.

Caminhos

Há oito meses prestando serviços voluntários nesta frente de trabalho, Paula Cristina Pimentel de Carvalho, com licenciatura em música, aplica aulas de violoncelo e violino, faz parte do Projeto Espaço Vida e Música da Primeira Igreja Batista, à parte do JOCUM. “Nós dividimos o espaço com o projeto, e as aulas funcionam com a nossa equipe”, explica. Para ela, as aulas são importantes porque são um espaço de convivência para os alunos. “Uma oportunidade não só profissional, mas também no desenvolvimento cognitivo e de formação pessoal. Porque as aulas são coletivas, então existe um trabalho de sociabilização com eles. Eles enxergam este projeto como se fosse uma família mesmo.”

Durante o horário de intervalo da aula de canto, observava, encostada em um canto da sala de música, com olhos verdes sob óculos de lentes grossas que indicavas grau forte, vestido florido, cabelos pintados de loiro com as raízes já grisalhas, estava Maria de Jesus Pereira Lima.

Após ser assistente administrativa durante 44 anos, depois da aposentadoria passou a dedicar-se a cuidar da mãe por seis anos, Maria pôde realizar um sonho distante de infância.

Quando caminhava pelas ruas do bairro do Uberaba, da qual é moradora há 40 anos, sentiu despertar seu sonho ao ler um banner que anunciava aulas de música. “Vim entrei e fiz minha inscrição. Como eu tinha essa vontade de aprender música desde a infância eu aproveitei esta oportunidade. Música é um refresco para a mente da gente”. Estuda violão, canto coral, teclado, mas franze um pouco chateada a testa pela aula de teoria musical “é obrigatória”. Sobre a diferença de idade diz que, “às vezes eu fico pensando que poderia me sentir um pouco descolada em meio a crianças e adolescentes, mas me sinto muito bem. Quero chegar até ao término do curso e me tornar voluntária”.

Memórias, sonhos de ninar e conversas. Resolver problemas sociais enraizados e já complexos talvez seja somente uma esperança. O que existe neste espaço até o momento é a realização.

Texto e fotos: Vinícius Costa Pinto